15h17 – Trem Para Paris | Crítica do Filme

15h17 – Trem Para Paris | Crítica do Filme

_Estrela
Sinopse:
Quando um terrorista invade o trem n° 9364 da Thalys a caminho de Paris, três amigos e soldados norte-americanos – Anthony Sadler, Alex Skarlatos e o piloto da Força Aérea Spencer Stone – se esforçam para imobilizar o extremista, armado com um fuzil AK-47, e evitar uma enorme tragédia.
Diretor:
Clint EastwoodElenco:
Anthony Sadler, Alex Skarlatos, Spencer Stone, Jenna Fischer, Judy Greer, Tony Hale, Thomas Lennon

Data de estreia:
8 de Março de 2018

O mais novo filme do venerado cineasta e ator, Clint Eastwood, é um filme que me demoro a decidir como começar a escrever sobre. “15h17 – Trem Para Paris” é um filme que gera expectativa em qualquer fã do trabalho de Eastwood. Se propõe a enaltecer o heróismo do patriota comum, e faz isso explorando um momento de tensão baseado em fatos reais.

Aplique estes temas em um filme feito por um cineasta notoriamente conservador, e as chances de agradar o público americano (extremamente influenciado pelo patriotismo militar) são grandes.  Sendo assim, espero estar sendo claro quando expresso minha supresa ao dizer que “15h17 – Trem Para Paris” é um filme ruim. Muito ruim. Provavelmente o pior filme da carreira de diretor de Clint Eastwood. 

Chega a ser frustrante pensar como um cineasta deste calibre, carregado de experiência profissional, consegue ser capaz de produzir sequências tão mal constrúidas, abordagens tão equivocadas e diálogos tão sofríveis. A responsabilidade de muitas destas falhas poderia ser colocada sobre a decisão claramente equivocada do diretor de escalar os próprios soldados americanos, que se tornaram heróis naquele fatídico dia, para interpretarem a si mesmos. Mas a verdade é que os problemas do filme vão muito além de performances fracas, começando pela construção dos “personagens” em suas infâncias.

um exemplo claro do que é uma abordagem equivocada: Os três amigos surgem ao começo do filme, sorrindo e andando de carro por uma avenida ensolarada. A voz de um personagens começa a narração, algo semelhante à “Eu sei o quê vocês estão pensando, o quê um ‘irmão’ como eu (o personagem é negro) está fazendo com estes dois ‘branquelos’. Mas a verdade é que estes são dois dos amigos mais próximos que eu tenho”.  Ao longo do filme, o personagem não volta a narrar nenhuma outra passagem.

Fica clara a intenção por trás da cena, e sua execução acaba soando forçada. Esta é a sensação que permeia o filme todo, de que tudo está sendo feito de maneira “forçada”.

Quando crianças, o filme propõe a mostrar a admiração que os personagens tem pelo exército americano e sua aptidão para ação. Para tal representação, são constrúidas cenas onde as crianças se fascinam por armas de fogo e discutem a “camaradagem” e a “emoção das trincheiras” que uma guerra proporciona. Estas são escolhas que não apenas soam artificiais em falas infantis, como também são moralmente questionáveis por qualquer um que se proponha a questioná-las.

Diversos outros momentos desconfortáveis são dignos de nota e poderiam ser citados para ilustrar meu ponto nesta crítica. São tantas cenas rísiveis, tantas interações artificiais, que chega a ser perfeitamente possível assistir a “15h17 – Trem Para Paris” com consciência de sua falta de qualidade, de maneira irônica, até mesmo cômica.

Quando os personagens crescem então, e entram as auto-interpretações dos soldados reais, nota-se que há um descaso gritante com as atuações. A proposta, muito provavelmente, era deixar a emoção de suas trajetórias ser retratada com total veracidade. O resultado é exatamente o contrário e absolutamente nenhuma das interações é capaz de soar natural ao público, seja este um público americano patriota ou não.

Há exageros onde deveria haver sutileza, e há irrelevância onde deveria haver construção. O enaltecimento e a glorificação de um ato heróico é um tema tão recorrente dentro do mundo do cinema, que cheguei a defendê-lo na crítica do filme que assisti meros dois dias antes deste, “12 Heróis“. Lá, explico justamente o por quê deste gênero trazer experiências tão impactantes para a maior parte do público. Mas não há como se apoiar apenas neste apelo dos fatos verídicos e desconsiderar o esforço necessário para tornar esta, uma experiência genúina para o espectador.

“15h17 – Trem Para Paris” é uma péssima adição à filmografia de Clint Eastwood, que um dia já produziu histórias sobre atos heróicos melhor orquestradas e realmente impactantes. Este dia foi dois anos atrás, com o filme “Sully” estrelado por Tom Hanks. Nem toda a notoriedade do mundo é capaz de justificar esta falta de comprometimento com a técnica, a construção narrativa e com as perfomances em si.