A Bela e a Fera | Crítica do Filme

A Bela e a Fera | Crítica do Filme

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Sinopse:

A história e os personagens que o público conhece e adora ganham vida de forma espetacular na adaptação em live-action do clássico de animação da Disney “A Bela e a Fera”, um evento cinematográfico deslumbrante que celebra uma das histórias mais amadas.

Diretor: 

Bill Condon

Elenco: 

Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Kevin Kline, Josh Gad, Ewan McGregor, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw, Audra McDonald, Hattie Morahan, Nathan Mack with Ian McKellen e Emma Thompson

Estréia: 

16 de março de 2017

A Bela e a Fera

Antes que eu comece a abrir a boca para falar qualquer coisa sobre a adaptação produzida pela Disney de A Bela e a Fera, quero que saibam que talvez não exista filme que eu não tenha visto mais vezes do que o animado de 1991. Além de ter um motivo pessoal muito forte, sempre tive profunda admiração pela história e o encanto que o desenho consegue transmitir. Dito isto, confesso que a todo instante durante a projeção do live action, lembranças daqueles mágicos personagens vinham em minha memória e eu constantemente tentava encontrar o mesmo encanto nos personagens que ali estava presenciando novamente no novo filme. Para minha infelicidade, encontrei um ou dois momentos que me fizessem acreditar que estava de fato assistindo a um remake do filme de minha infância.

Com duas horas e nove minutos de duração, 47 minutos a mais que o longa animado, o diretor Bill Condon (A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1 e Parte 2) teve tempo suficiente de acrescentar novos elementos para dar mais profundidade à história. Em certos momentos conseguiu agregar, mas em muitos outros apenas adicionou gordura à trama. Bastaram-se alguns minutos de projeção, e novas canções, para que eu percebesse que um dos maiores ícones do animado já tinha sido limado em troca de uma explanação mais detalhada de como o mimado príncipe se tornou numa Fera isolada. No entanto, nessa cena que nos diz pouca coisa, ainda permaneceu a narração, dando um aspecto de fábula à projeção, mas que na real, apenas verbaliza o que estamos assistindo.

Passado esse primeiro impacto, somos apresentados à nossa real protagonista, Bela, vivida pela atriz Emma Watson, que negou viver Cinderella nos cinemas mas aceitou ser Bela por admiração à história (ou apenas capricho pessoal). Não preciso dizer o quão errado foi essa escolha da Disney. A atriz que viveu durante muitos anos a personagem Hermione em Harry Potter negativamente ainda carrega o fantasma de sua personagem. É impossível desassociar a imagem de Hermione à Watson. Queria eu que esse fosse o problema mais agravante, mas não foi. O que realmente me incomodou o tempo todo foi sua completa falta de expressão corporal. A sensação de que ela estava desconfortável no figurino ao fixar seus braços constantemente para baixo, deixou esse momento, que deveria ser um dos mais belos números musicais do longa, travado e inexpressivo. A cena já foi divulgada pela Disney, basta dar o play e reparar.

Ainda na mesma cena, a música Bonjour, belíssima canção composta por Alan Menken para o animado, sofre alterações positivas, que ficaram excelentes na adaptação. O que não ficou bom foi o mono tom de palheta de cores presente em toda a cena, mas até aí entendo que a intenção é apresentar uma vila pequena sem graça e sem cor. O imperdoável mesmo é deixar uma música tão ritmada e crescente na interpretação de figurantes que num primeiro momento parecem ter saído de um velório direto para as filmagens, e num segundo momento parecem estar desesperados pelo claustrofóbico cenário repleto de pessoas que contradizem com seus movimentos a empolgante música de abertura. Até esse momento, compreendo a intenção e o objetivo do diretor e design de produção, mas ficou de um extremo mal gosto nos dando a sensação de filme com baixo orçamento feito para televisão.

Nem só de elementos mal representados o filme se faz, há sim coisas boas que o longa nos apresenta. A primeira delas é a dupla de personagens interpretados por Luke Evans e Josh Gad. Eu me incomodei durante todo o processo de divulgação do filme com Luke Evans no papel do boa pinta Gaston, porém, ele entendeu bem o personagem e conseguiu humaniza-lo sem grandes esforços. Grande parte desse processo se deu a um dos melhores personagens da trama, LeFou, vivido por Josh Gad. Nos últimos dias seu personagem que é abertamente homossexual no filme foi alvo de diversas críticas chegando a movimentar conservadores e ignorantes de plantão. O personagem é na medida certa, sem exagero e sem necessidade de estereotipar. A amizade entre os dois é pincelada com doses de admiração que o segundo sente pelo primeiro.

Outro personagem que também me incomodou durante a divulgação e engrandeceu no filme é Kevin Kline como Maurice, pai de Bela. Desde sua primeira aparição percebemos que traria ali um desenvolvimento mais complexo, um homem que esconde de sua filha o passado de sua mãe. O primeiro acréscimo no roteiro que realmente foi prudente, visto que no animado de 91 supúnhamos o que houve, mas não é revelado abertamente nos diálogos. Percebemos uma angústia no personagem que aos poucos é revelada, mas bem pouco impactante. O mesmo ocorre posteriormente com o passado de Fera, com uma cena em flashback que tenta explicar a real razão da má personalidade do príncipe e a relação que os empregados tiveram para serem punidos pela Feiticeira.

Falando nela, a Feiticeira também tem um papel de maior importância. No animado de 1991 ela aparece no início castigando os moradores do castelo e some, aqui há sim um contexto um pouco maior de sua existência na trama. Esses são pontos que engrandeceram e justificaram positivamente os 40 minutos a mais, mas junto deles muitos outros desnecessários foram postos, como um par romântico a uma das personagens objeto do castelo que completou muito pouco à narrativa.

O cinema tem nos surpreendido com a evolução do CGI, trazendo à telas diversos modelos 3D bem trabalhados que chegam próximo à realidade, muitas vezes encanando nossos olhos, como foi o caso de Mogli: O Menino Lobo. No entanto, o CGI apresentado em A Bela e a Fera nos dá a mesma sensação dos modelos humanos do filme Rogue One: Uma História Star Wars. Soou um retrocesso de tecnologia de pelo menos 10 anos. Os personagens objetos do castelo nem tanto, mas a Fera em momentos mais iluminados se torna uma real animação feita para video-games. O fato de humanizarem mais o design e deixarem mais longe de uma besta e mais próximo de um humano é positivo pois conversa melhor com Bela contracenando ao seu lado, mas as expressões visivelmente computadorizadas estragam a experiência.

Ainda sobre os objetos, no animado de 1991 foi-se usada uma técnica na qual conseguimos identificar qual objeto estamos vendo e ao mesmo tempo eles possuem uma maleabilidade deixando-os humanizados e com uma grande possibilidade de movimentos. Aqui no filme de 2017 temos um problema sério nessa adaptação. Os personagens pouco se movem dando um aspecto estranho quando precisam interagir com a protagonista humana Bela, não há mais aquela sensação de magia. O roteiro até tenta explicar o processo que os fazem ser assim, mas em tela ficou vexaminoso. Lumière que no animado é o personagem mais simpático, aqui foi substituído por um modelo digital com poucas expressões. O lado positivo é identificar as marcantes vozes de Ewan McGregorIan McKellenEmma Thompson. Quanto a suas dublagens não há o que reclamar.

O ponto principal dessa história é a relação existente entre uma personagem humana e um personagem feio por fora mas que aos poucos descobre ser belo por dentro e a forma com que eles aos poucos vão se aproximando. O filme tenta não inventar muito, e segue os mesmos passos do animado, mas convence bem menos com a limitação que Watson teve ao interpretar precisando usar sua imaginação,. Você não sente que ela está olhando para uma Fera, ou então que está se transformando da prisioneira à convidada. Tudo parece ter sido feito às pressas para adicionar as novas canções e a gordura de enredo que falei no inicio do texto. Isso que é o primordial no filme, passa batido.

Apesar dos pesares, depois de dizer tudo isso, venho me contradizer com poucas palavras: o filme está longe de ser ruim. A história de A Bela e a Fera é encantadora, tem uma mensagem belíssima que é completamente necessárias em dias como os de hoje nos quais não aceitamos aquilo que é diferente de nosso reflexo. Talvez seja o mais poderoso texto de tolerância que o cinema pode nos dar em mais de cem anos de história. Recuperar erros históricos é de se aplaudir em pé, e ver a conservadora Disney dar sinal verde em adicionar elementos que até há alguns anos era um tabu gigantesco, é de presenciar o inicio de uma grande mudança positiva que será transmitida para as próximas gerações. A escolha do filme para isso foi perfeita.

Se recuperar perante o público desses preconceitos que durante tantos anos perpetuaram em seus filmes, é óbvio que não apagam os erros cometidos na nova produção. O fato deles nos contarem novamente essa história, que é um dos mais tocantes conto de fadas já escritos, responsável por gerar diversos amantes ao redor do mundo, não vai apagar nem substituir o clássico que que beira a perfeição e ainda se manterá favorito para o público. Estão perdoados pelo erro, pois é  preferível ver a Disney gastando sua energia ao transformar esses clássicos em filmes live action 80% bem produzidos, ao invés de sequências animadas com qualidade questionável direto para home vídeo, como foi feito no início dos anos 2000.

Como diz a própria canção tema do filme, A Bela e a Fera permanecerá tão antigo quanto o tempo, mas com uma mensagem sempre atual que é obrigatória dentro da casa de todas as famílias. Vá assistir, mas saiba que a emoção transmitida pelo clássico animado é insubstituível.