A Torre Negra | Entenda as diferenças entre os livros e o filme

A Torre Negra | Entenda as diferenças entre os livros e o filme

Nota do editor: o site Plugou.com convidou Arthur Allain, um dos moderadores de um grande grupo sobre “A Torre Negra” no Facebook, para fazer uma comparação entre o filme e os sete livros escritos por Stephen King. Por isso, todo o texto a seguir possui análises detalhadas de cenas descritas nos livros e como elas foram interpretadas nos cinemas, incluindo detalhes sobre a conclusão do longa. Logo, algumas informações podem ser consideradas spoiler. Recomendamos que você leia apenas se já assistiu ao filme.  – Rodrigo Santuci

 

“O Homem de Preto fugia pelo Deserto. E o pistoleiro ia atrás”.

 

Quando Stephen King, ao auge de seus 19 anos e idade, escreveu a sentença acima pela primeira vez, eu honestamente duvido muito que ele mesmo acreditava na grandiosidade da história que estava prestes a contar. Assim como em “Num buraco vivia um hobbit”, uma vez Tolkien iniciou a maior jornada de fantasia da história da humanidade. O que aconteceu quando King escreveu sobre o pistoleiro e o homem de preto pela primeira vez mudou o mundo do entretenimento para sempre, pois um novo multiverso literário foi criado.

Em apenas 12 palavras, King subitamente nos apresenta a uma situação: Há um herói, há um vilão, e há um cenário. Na sequência disso somos introduzidos ao mundo médio: um lugar diferente e familiar, caótico mas desnutrido de ação, ambicioso e ao mesmo tempo contido. Utilizando elementos de fantasia medieval, ficção cientifica, crônicas arthurianas, western spagethi e muita, muita, meta-linguagem a suas próprias obras, iniciamos a grandiosa jornada até A Torre Negra através dos olhos azuis de Roland Deschain, aka, o pistoleiro.

Esta jornada se estende por 7 livros, aproximadamente 4500 páginas. Um universo riquíssimo, extenso e apaixonante para todos aqueles que o adentram. Planos de ilustrar esta jornada através da grande tela existem desde os anos 90. Diversos nomes como J.J. Abrams e até mesmo Ron Howard já tentaram traduzir os livros em alguma espécie de entretenimento cinematográfico ou televisivo, nunca deu certo.

Em 2015 o projeto caiu aleatoriamente na mão do dinamarquês Nikolaj Arcel, cujo único trabalho relevante em sua carreira como diretor foi “O Amante da Rainha” (2012), filme que concorreu ao Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira. Nessa altura do campeonato você já deve saber que a adaptação cinematográfica deA Torre Negra não funcionou. A crítica especializada está detonando o filme e os fãs de todo trabalho de escritor estão extremamente decepcionados. Mas a grande pergunta aqui é: Porque?

Como fã, listarei abaixo alguns dos principais motivos na qual o filme fracassa colossalmente em nos apresentar esta potencial franquia.

 

 

Personagens unidimensionais

A primeira grande diferença é não começar o filme com a icônica frase dos livros. Mas não só uma frase impactante, durante todo o primeiro livro da saga somos introduzidos ao real motivo de Roland Deschain (o pistoleiro) perseguir este “Homem de preto”. Esta motivação não é preto no branco, existem razões não só sentimentais mas também um senso de dever e o porquê de Roland, mesmo ciente de que seu mundo “seguiu adiante”, permanece com sua missão. O filme desconsidera toda esta construção de personagem e resume o relacionamento de ambos em uma simples “vingança”.

Não bastasse, em nenhum momento as ações dos personagens são justificáveis através do roteiro. Jake quer salvar a Torre Negra porque suas visões dizem que isso deve ser feito. Roland quer vingança. O Homem de Preto quer destruir a torre. Porém, em apenas 90 minutos de tela, não há nenhum senso de exploração destes porquês, algo que King demorou 7 livros para conseguir detalhar.

Ausência de co-relação entre as obras do autor e de outros autores

A Torre Negra não é uma história que funciona sozinha. Leitores assíduos do escritor bem sabem: o Homem de Preto é só um dos infinitos nomes que Walter das Sombras tem. O principal pilar que conecta o universo da Torre Negra a outras histórias de Stephen King é justamente o Homem de Preto. Em diversas histórias do autor, Walter retorna com algum pseudônimo mas sempre com o objetivo de vilanificar aquela história. Todo esse senso de conexão entre as obras e deixado de lado aqui, o que empobrece em muito o real potencial desta adaptação.

 

 

O final feliz

Nenhum dos 8 livros que compõem A Torre Negra (sendo 7 a original história e 1 livro adicional complementar a saga) possuem finais felizes. King, de forma extremamente ousada, sempre brincou com a expectativa dos leitores quanto a como estas histórias seriam concluídas. “Morte, Pistoleiro, Mas nunca… NUNCA…para você”.

O simples fato de Jake não morrer no filme como morre no final do primeiro livro altera de forma catastrófica tudo aquilo o que a saga de Roland realmente significa: a obsessão de um homem para com um objetivo que só será alcançado se houver o sacrifício de todos aqueles que o acompanham. A morte de Jake não representa somente o fim do arco de um personagem importante da saga, mas também que Roland está disposto a passar por cima de seus companheiros para concluir sua missão: chegar a torre negra.

A sequencia que não é sequencia

Quando King conclui o sétimo livro há um elemento que os fãs identificaram na pré-produção do filme que poderia indicar que a adaptação cinematográfica se tratava de uma sequencia: a corneta de Arthur Eld. Idris Elba porta a corneta em todo o material publicitário do filme. A mesma recebe até algum destaque em algumas sequências onde a câmera dá um zoom sobre a mesma.

Entretanto, isso não passa de um pequeno fanservice que nada agrega a história. A corneta não é usada, sequer é citada durante toda a história. Aquela grande teoria de que o filme seria uma sequencia se mostrou falsa e não há um único elemento apresentado no filme (exceto a superficial corneta) que indique esta história se passa em uma nova “roda do ka”.

 

 

Elementos visuais discrepantes.

Não vamos entrar na de discussão sobre a etnia de Roland Deschain, até porque, esta é a menor das diferenças visuais que impactam no decorrer da história. A equipe criativa do filme tomou decisões um tanto quanto polêmicas sobre como traduzir as palavras de King para o áudio visual. Exemplos que irão decepcionar bastante os fãs: A torre negra em sí, no filme, é retratada como uma simples torre que se ergue acima das nuvens. Lembrando que no livro a Torre é um objeto metafisico que possui uma representação física no meio do campo de rosas porém que não necessariamente se trata de matéria, mas sim da concentração de energia de todos os universos conectados.

Há também decisões horríveis quanto a construção do mundo médio. O mesmo não se distancia do que é a torre em alguns lugares mais remotos. Tirando alguma piada ou outra (sobre Roland desconhecer o que são as estruturas do parque de diversões abandonado), não há nenhum indicio de que aquele universo (o Mid-World em questão) é realmente diferente do nosso. Lembrando que nos livros, Roland sempre descreve o que aconteceu em seu mundo como “ele seguiu adiante”, como se não houvesse acontecido o filme, mas as coisas estão quebradas. Segundos demoram anos para passar, séculos acontecem em minutos, dias eternos e noites que passam em um piscar de olhos. É como se todo o espaço e tempo estivessem bagunçados e a equipe criativa do filme não tentou nem minimamente vender esta ideia aos espectadores.

Diálogos

Que Stephen King é um escritor prolixo todo mundo sabe. Porém, o seu talento não se resume apenas a descrever personagens e criar situações. King é excelente em diálogos. E certamente parte do sucesso da saga de livros A Torre Negra se dá aos excelentes diálogos entre personagens que acontecem a certa frequência nos livros. Nenhum único destes memoráveis diálogos dos livros é retratado no filme. O filme, inclusive, tenta criar jargões que não funcionam em hipótese alguma dada a forma que a história está sendo contada.

A cena em que Roland e Jake recitam o juramento dos pistoleiros de Gilead, por exemplo, não possui nenhuma profundidade e é usada apenas para reverberar em um cliffhanger no final do filme. Até mesmo no material publicitário do filme foram usadas frases como “Há outros mundos além deste” e “Todos Saudem o Rei Rubro”, porém, estas icônicas frases, não possuem qualquer importância para a trama do filme como possui para os livros. O que é uma verdadeira perda.

 

 

Por fim, A Torre Negra é um filme tão diferente de sua fonte original que não só poderia ter outro título e os fãs só reconheceriam as semelhanças como também deixa um amargo na língua para qualquer possibilidade disso se tornar alguma futura franquia, seja na televisão ou no cinema.

Vamos torcer para que o alto calão de executivos da Sony se lembre do rosto de seus respectivos pais e encontrem uma forma de reverter esta primeira tentativa fracassada de traduzir os livros em filme, porque ao menos pra mim, apaixonado pelos livros, este filme não faz jus ao real potencial da obra. Uma adaptação que, tal qual o mundo de Roland, mal nasceu e já seguiu adiante….

  • Ernani Tatsuno

    Parabéns pelo texto, Arthur.
    Acho que você retratou muito bem o sentimento de quem é fã e queria mais uma vez poder voltar ao mundo médio e ver algo novo.
    Eu particularmente queria muito que fosse algo diferente do que está nos livros, mas queria algo consistente e que tem a ver com o que o king escreveu, mas parece que o filme só foi feito às pressas e de qualquer jeito. O que é uma pena.