Bingo: O Rei das Manhãs | Crítica do Filme

Bingo: O Rei das Manhãs | Crítica do Filme

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Sinopse:

Inspirado na vida do ator e apresentador Arlindo Barreto, o filme narra as desventuras de Augusto (Vladimir), um artista que sonha em encontrar seu lugar sob os holofotes e que se depara com sua grande chance ao se tornar “Bingo”, um palhaço apresentador de um programa infantil que é sucesso absoluto no Brasil. Porém, uma cláusula no contrato não permite revelar quem é o homem por trás da maquiagem e Augusto, ou o novo “Rei das Manhãs”, se transforma no anônimo mais famoso do Brasil.

Diretor:

Daniel Rezende

Elenco:

Vladimir Brichta, Leandra Leal, Emanuelle Araújo, Ana Lúcia Torre, Tainá Muller, Augusto Madeira

Estreia:

24 de agosto de 2017

 

 

 

Bingo: O Rei das Manhãs é sem dúvida o filme nacional mais aguardado e divulgado em 2017. Com veiculação de trailers e spots desde dezembro de 2016, o longa vem sendo foco das notícias  desde que Wagner Moura saiu do projeto e foi substituído por Vladimir Brichta. Dirigido por Daniel Rezende, conhecido por trabalhar na edição de filmes como o remake “Robocop” e nos dois “Tropa de Elite”, o longa é inspirado na vida do ator Arlindo Barreto, que ficou conhecido nos anos de 1980 por interpretar a versão brasileira do palhaço Bozo nas manhãs do SBT.

É inquestionável que o palhaço apresentador é um ícone na história da TV brasileira, inclusive desse que vos fala que foi sorteado em uma promoção no programa e até hoje não recebeu o prêmio. Bozo revolucionou uma época na qual a programação infantil era dominada por loiras de mini-saias e botas longas. No entanto a história por trás do homem que deu vida ao personagem é marcada pelo vício por drogas ilícitas e álcool – algo que refletia na apresentação do programa – mas também, marcada pela nem tão conhecida recuperação atribuída à igreja evangélica.

O filme é brilhantemente estrelado por Vladimir Brichta que consegue agarrar o público logo em suas primeiras cenas e é o principal mérito de toda projeção. A história se inicia abordando o relacionamento entre Augusto (Vladimir) e seu filho. Divorciado e sem muito sucesso na carreira de ator, acaba entrando num teste para a apresentação de um programa infantil numa emissora que estava longe de ser líder de audiência no período das manhãs. Brichta facilmente convence que é o personagem recriando perfeitamente os trejeitos do palhaço original. Um excelente trabalho de corpo e voz.

 

 

Há uma bela homenagem ao circo, em cenas que contam com a participação de Domingos Montagner, em seu último trabalho para o cinema na qual ironicamente ele interpreta a origem de sua carreira. Um momento bem emocionante, sem dúvida.

A história captura a atenção do público pela irreverência daquela época e por sua perfeita ambientação que inclui a caracterização dos personagens. O cuidado em mostrar uma São Paulo dos anos de 1980 apresenta panorâmicas que incluem lugares icônicos como a extinta loja Mappin no centro da cidade, e ainda conta com a ajuda de uma marcante trilha sonora. Inquestionavelmente uma máquina do tempo para os que presenciaram a década.

Nos dois primeiros atos temos uma comédia dramática que nos surpreende pelos absurdos que eram socialmente aceitos em um período no qual o respeito e bom senso pareciam não existir. O auge do filme se foca nesse momento, mas vai perdendo o ritmo conforme é desenvolvido o drama pessoal do homem por trás do personagem. Começa empolgante mas perde a força assim como a trajetória vivida por Arlindo.

Apesar do longa não ter tido a autorização de usar o nome Bozo, reza a lenda que Arlindo apenas permitiu que sua vida fosse retratada se uma porcentagem do filme apresentasse a sua recuperação através da religião, o que deixa a produção completamente fora de tom no terceiro ato. A euforia oitentista é substituída por um drama menos interessante de um viciado buscando se encontrar e recuperar o amor do próprio filho.

 

 

A quebra na história serviu para o diretor fazer experimentações visuais como um plano sequência que leva o público de uma janela de um apartamento, passando por São Paulo dos anos 80 até chegar em uma outra janela de um quarto de hospital. Visualmente incrível, mas substitui aquilo que o filme teria de mais valioso: a história sobre a produção do programa e o palhaço drogado lidando com crianças.

O filme prova que mesmo 30 anos depois é muito mais interessante assistir os absurdos do palhaço sem noção que leva uma performance de Gretchen rebolando para um público infantil e liderando a audiência da TV brasileira, do que a história do pai imprudente que não soube lidar com seu ego e se entregou às drogas e mais tarde buscou ajuda pela religião. O palhaço drogado é atípico, uma história única, mas o recuperado pela igreja é clichê e podia ser a história de qualquer um que passou por essa situação.

 

 

O fato é que as pessoas irão ao cinema para rever o Bozo e assistir os bastidores da televisão na década mais maluca que vivemos. Essas pessoas  encontrarão um bom roteiro em Bingo: O Rei das Manhãs” que nos dará uma boa noção da loucura que foi, porém, sairão do cinema com a sensação de que viram um outro filme quando o discurso religioso visivelmente é incluído por questões contratuais e atrapalhou a história que estávamos vendo.

Bingo: O Rei das Manhãs” consegue ser nostálgico e prova que o Brasil tem recursos para dar vida a grandes produções que resgatam a história recentemente vivida, porém, mostra que nosso cinema também fica com os pés travados no quesito criatividade quando é obrigado a incluir elementos reais de uma vida que teve apenas poucos fatos interessantes. Uma pena o filme não conseguir segurar o ritmo, da forma que eu imagino que os criadores devem ter idealizado originalmente, e ser obrigado a terminar enaltecendo um maluco que virou ícone que, após ter feito o que fez, hoje é autor de um discurso preconceituoso em nome de Deus.