Fragmentado | Crítica do Filme

Fragmentado | Crítica do Filme

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Sinopse:

“Fragmentado” retrata o dia a dia de Kevin, interpretado por James McAvoy, um homem que sofre de multiplas personalidades que se manifestam aleatoriamente. Embora esse quadro clínico seja conhecido pela psicóloga de confiança de Kevin, Dr. Fletcher (Betty Buckley), existe uma outra personalidade submersa que está programada para surgir e dominar todas as outras. Forçado a sequestrar três garotas, entre elas Casey (Anya Taylor-Joy), Kevin se vê em uma guerra pela sobrevivência contra as forças que existem dentro dele – e também contra as que estão ao seu redor.

Diretor:

M. Night Shyamalan

Elenco: 

James McAvoy, Betty Buckley, Anya Taylor-Joy, Haley Lu Richardson e Jessica Sula.

Estréia: 

23 de março de 2017

 

Fragmentado

Para muitos a carreira de M. Night Shyamalan seria uma ascensão sem limites, pois seu promissor filme de estreia era tão perfeito que se tornou um clássico instantâneo. O Sexto Sentido marcou uma geração em 1999, ano no qual o mundo conhecia o visionário diretor indiano, que chegou ser comparado com grandes nomes do cinema. Seu segundo filme, fez bem menos barulho, porém Corpo Fechado também foi um marco de sua carreira. Nessa que muitos chamam de primeira fase de Shyamalan, o diretor apresentou filmes minimalistas, com um apelo muito grande no roteiro, dando muito mais ênfase à trama e conflito de seus personagens. Sua marca eram os plot twist inesperados que davam ao público aquela sensação de surpresa todas as vezes. Porém, o plot twist que não deu certo em sua carreira começou em 2006 com o aquém do esperado A Dama na Água, que foi seguido por um longa mais decepcionante que o outro. O que parecia ser o túmulo de sua carreira foi o longa Depois da Terra, no qual ele apenas foi diretor contratado sem assinar o roteiro. Um fracassado filme que teve em seguida o início do diretor numa estreia na televisão com a série Wayward Pines, que pouco posso opinar por não ter visto. Quando ninguém dava mais créditos para Shyamalan ele apresentou A Visita (2015), longa autoral que se assemelhava muito mais com seus primeiros filmes que dos últimos. Ao que parece, sua carreira deu uma guinada positiva, pois Fragmentado é sem dúvida, o segundo melhor filme que ele já dirigiu e escreveu, perdendo apenas para seu longa de estreia.

 

Ver um filme de Shyamalan é quase uma experiência,  pois ele mesmo deixa o público mais antenado na história devido aos plot twist, no entanto, posso afirmar que se você ficar tentando adivinhar o que está acontecendo em Fragmentado irá apenas perder seu tempo, pois a virada existe, mas não é o fundamental para o conjunto da trama. Dessa vez ele brinca com gêneros de filmes diferentes, há horas que estamos vendo um suspense, outras parece até um terror, em alguns momentos você verá um drama sobre um homem enfermo. É interessante observar como Shyamalan consegue enganar o espectador sem contar uma mentira. Ele é um ilusionista na direção.

A trama apresenta Kevin Wendell, vivido brilhantemente por James McAvoy em sua melhor atuação até então. Um homem que sequestra três garotas e as mantém em cativeiro em um porão. No entanto Kevin possui 23 identidades diferentes e vive o dilema em saber que a 24ª identidade está chegando, uma identidade que irá sobressair a todas as outras. Enquanto as três garotas buscam uma saída do cativeiro Kevin trabalha com sua psicóloga Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley) para controlar a nova identidade que está cada vez mais próxima.

 

Existe uma cena muito interessante nesse filme, na qual posso descrever sem revelar nada da trama. Dra. Karen Fletcher conversa com sua vizinha que a questiona sobre seus pacientes e o quanto eles podem ser perigosos, no entanto a médica diz que talvez eles não sejam os inferiores mas sim nós, que nos consideramos normais. Enquanto isso, sua vizinha assiste televisão de forma apreensiva conversando com o apresentador como se do outro lado ele pudesse lhe ouvir, e em seguida é impactada por um merchandising que lhe faz correr para o telefone para comprar um determinado produto. Essa cena se manteve em minha mente, pois durante toda projeção não vemos mais essas duas personagens juntas, e ela nos diz muito a respeito do que Shyamalan quer falar com esse filme. Somos todos monstros em níveis diferentes, o reflexo de uma sociedade consumista na qual o ter é mais importante que o ser nos transforma em pequenos (ou grandes) portadores de algum tipo de esquizofrenia, até aquelas que nem percebemos como, por exemplo, falar com um equipamento eletrônico.

Podemos ter em mente que Shyamalan está apresentando um filme sobre humanos e seus defeitos e manias de nos dividir em grupos, de nos acharmos superiores aos outros e lutarmos com nossas vidas como se nossa existência dependesse em ter sempre a razão. Grupos de pessoas são vistos desde a primeira cena do filme, quando um pai questiona a filha sobre o motivo de ter convidado uma outra garota para seu aniversário apenas por educação. Tal conflito também estará presente no protagonista, o qual convive com mais 23 personalidades diferentes, e essas também com opiniões distintas.

 

O suspense e sensação de perigo constante muitas vezes é quebrado quando o protagonista, que no filme é também o antagonista, deixa vir “à luz” o garoto Hedwig, de apenas nove anos. A sensação de simpatia e ao mesmo tempo de medo que a atuação de McAvoy transmite seria digna de um Oscar. Um erro terrível não ter sido lembrado pela academia. Sutis mudanças de sua fisionomia são suficientes para saber qual personalidade está presente em determinada cena. Não seria nem necessário vestir o ator com roupas femininas para sabermos que ele está em algumas cenas interpretando Patricia, uma das suas poucas identidades de mulher que conhecemos.

Fragmentado é surpreendente, empolgante e envolvente, três qualidades que não víamos M. Night Shyamalan apresentar há muito tempo. Sua equipe técnica é iniciante, de acordo com coletiva de imprensa na qual estive com ele em São Paulo, pois seus filmes precisam ficar do jeito que ele imagina, e todo valor da produção é financiado por ele, pois, aparentemente, ele não quer mais a interferência de terceiros sobre seus filmes e também não dispõe de uma verba alta para eles, obrigando-o a encontrar novos talentos. Sempre soube que um dia seríamos surpreendidos novamente por Shyamalan, e ele conseguiu. Estou aguardando ansiosamente a sequência já prometida pelo diretor para os próximos anos.

 

Assista nossas primeiras impressões sobre o filme: