Justiceiro Noir | Sangue nas ruas esfumaçadas

Justiceiro Noir | Sangue nas ruas esfumaçadas

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justiceiro noir criticaEscrever um texto sobre o personagem Justiceiro, no contexto em que vivemos hoje nos centros urbanos brasileiros, em especial São Paulo, chega a ser quase que uma ironia de minha parte. Em tempos de banalização de violência e gritos proto-fascistas de bandido bom ser bandido morto, cabe a mim apenas um comentário sobre esta obra datada de 2009 e com edição recente em capa dura, sendo mais um trabalho elegante da Panini.

A Série Noir da Marvel já apareceu por aqui no Brasil com outros grandes personagens, como Wolverine e Homem de Ferro e, assim como eles, Justiceiro Noir entra em conflito quando o assunto é o respeito ao gênero, nascido no cinema da década de 1930. No caso de Frank Castle, porém, é imperdoável; desta vez não há armaduras ou poderes extraordinários para contrabalancear a atmosfera soberba e cínica de uma boa história noir, muito pelo contrário: um homem fragmentado em busca de vingança, um verdadeiro prato cheio para esta linha narrativa. Aliás, o roteiro de Frank Tieri é o calcanhar de Aquiles do produto, em pouco aproveitando as possibilidades do gênero, resumindo a história da formação de Frank Castle em Justiceiro de forma bastante corrida, adaptando o processo de transformação do personagem em um simples retrato de época.

Coube a Paul Azaceta e Antonio Fuso a tarefa de criar a atmosfera noir visualmente, o que resultou em um trabalho competente e de muito respeito ao gênero. O esfumaçado toma de assalto as páginas, assim como o contraste de cores quentes e frias para ambientes externos e os tons pasteis para os internos.

Justiceiro Noir é breve demais e deixa passar uma oportunidade de ouro de criar uma graphic novel de respeito para o viligante mais temido das ruas de Nova York. Um dos mais complexos e sombrios anti-heróis das histórias em quadrinhos possui prerrogativa tamanha ao gênero noir que parece que foram feitos um para o outro: um homem de emoções vazias e propósitos destrutivos e imediatistas vivendo em um mundo sutilmente hostil, tenso em todos os minutos e o mais próximo da simples definição “cinza”. É, não foi dessa vez, Marvel.