Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi | Crítica do FIlme

Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi | Crítica do FIlme

 

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Sinopse:
A tímida Laura (Carey Mulligan) acredita ter tirado a sorte grande quando encontra Henry McAllan (Jason Clarke), um homem um pouco bruto, mas interessado nela. Logo após o casamento, a família se muda para uma fazenda no chuvoso delta do Rio Mississipi. Enquanto Laura enfrenta dificuldades para se adaptar à vida rural, ela é confrontada com uma família negra, os Jackson, responsáveis por ajudar no trabalho pesado com o plantio e a colheita. Duas posições muito distintas se desenham na família: enquanto o pai idoso de Henry, Poppy McAllan (Jonathan Banks), luta para manter os privilégios dos brancos no terreno, o irmão de Henry, Jamie McAllan (Garrett Hedlund), desenvolve uma boa amizade com o filho dos caseiros, Ronsell Jackson (Jason Mitchell), pelo fato de ambos compartilharem traumas da guerra. Um violento conflito de etnias, gêneros e classes sociais marca a convivência entre os McAllan e os Jackson.Diretor:
Dee ReesElenco:
 Carey Mulligan, Garrett Hedlund, Jason Clarke, Jason Mitchell e Mary J. Blige.Data de estreia:
15 de Fevereiro de 2018

Lançado em novembro do ano passado nos EUA direto para streaming, “Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi” foi adiado para estrear em territórios internacionais perto da cerimônia do Oscar, onde era um potencial candidato. Salvas algumas exceções, o filme acabou sendo ignorado pelo Academia na maior parte da premiação, e devo dizer que embora não possua o mesmo impacto imediato de outros indicados, temos aqui um filme que com certeza valeria o tempo de qualquer votante.

O filme também recebeu atenção durante a temporada de premiações pelo fato de ter sido dirigido por uma mulher. Dee Rees, cuja filmografia ainda é tímida, exibe capacidade na hora de retratar um roteiro eficiente, também co-escrito por ela. Algo que também costuma chamar a atenção da academia, o filme trata de tensões raciais entre duas famílias do Mississipi, uma negra e a outra branca.

Devo adiantar que um dos grandes méritos de Mudbound é saber abordar estas questões raciais com sutileza e eficácia. Com algumas simples linhas de diálogos, somos introduzidos às “regras” desta sociedade segregante, e às dinâmicas sociais que existem como consequência. Um personagem pode não ter o ódio e o preconceito de gerações passadas, mas trata pessoas negras como inferiores simplesmente por ser algo “natural” dentro de sua comunidade.

Sendo assim, fica rapidamente claro que estas interações e tensões serão o principal foco do filme. Enquanto ambas as famílias trabalham nos lotes de produção, o filho mais velho da família negra é convocado para servir no exército durante a Segunda Guerra Mundial, assim como o irmão mais novo do personagem de Jason Clarke, chefe da família branca. Enquanto acompanhamos a rotina das famílias no Mississipi, o  filme intercala algumas cenas dos personagens na guerra e o horror que testemunharam.

O resultado é um ótimo trabalho de contextualização e construção deste universo. Fica evidente a intenção de se retratar a ignorância de uma sociedade segregada. Afinal, quando se está na guerra, pouco importa a cor da pele de um homem enquanto este assiste seus companheiros serem mortos ao seu lado. E apenas alguém que passou pelas mesmas experiências poderia começar à compreender tais traumas.

A fotografia, embora pouco inspirada, é agradável aos olhos. Embora diversas cenas estejam imersas em escuridão, as paisagens do Mississipi resultam em belos quadros. Já a trilha sonora acaba sendo um ponto mais interessante, uma vez que costuma ser usada para introduzir o espectador em um clima de tensão e expectativa. Em algumas cenas, a música chega à entrar um considerável tempo antes de algum momento impactante, deixando o público ansioso.

Porém, o filme realmente só funciona graças ao seu roteiro, que entrega personagens interessantes e engajantes o suficiente para que o elenco seja capaz de entregar ótimas atuações. Cito que a trilha constrói os momentos de tensão, pois o roteiro se encarrega de recompensar essa construção com sucesso. Embora o ritmo do filme possa cair um pouco ao final do segundo ato (devido à progressão da história), há momentos em que o filme conquista a atenção até mesmo do mais disperso espectador.

“Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi” é um belo filme. Merece ser visto em tela grande, mas nem por isso deve ser deixado de lado quando inevitavelmente chegar o streaming. Apesar de uma narrativa lenta, é um filme digno de nota, edificante em sua abordagem da humanidade dos personagens, e deve alavancar a carreira de Dee Rees para projetos muito mais ambiciosos.