Os Livros da Magia – A mente de Neil Gaiman esquadrinhada

Os Livros da Magia – A mente de Neil Gaiman esquadrinhada

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livros da magia notadoConversando com um amigo ateu, há muito tempo, ele me dizia que se houvesse, de fato, um deus, este obrigatoriamente teria de ser similar a Neil Gaiman. E, não confunda, ele não dizia isso levando em consideração algum tipo de admiração incondicional, visto que nem gostava de quadrinhos; era simplesmente o fato de Gaiman exibir-se como, de muito longe, uma das mentes mais criativas já conhecidas pelas pessoas, capaz de sincretizar crenças e lendas em um universo fascinante e, em muitos momentos, desesperançoso.

                Já disponível nas bancas e livrarias, Os Livros da Magia – Edição Definitiva (Panini – 2013) conta a história de Timothy Hunter, um adolescente inglês, orfão de mãe que descobre, de repente, que seu destino é o de se tornar um dos maiores magos de sua era. E, sim, ele ganha uma coruja. Qualquer semelhança com outro famoso mago não é mera coincidência, sendo este assunto recorrente entre os fãs de Gaiman e Rowling, levando, em alguns casos, a disputas inúteis. Quem acredita que Tim Hunter é um personagem original engana-se, assim como quem considera Potter fruto de plágio; ambos possuem raízes muito mais profundas, nascendo no insólito T.H. White e seu personagem, o garoto Wart, jovem companheiro de Merlin. Com esse assunto encerrado, podemos falar do que interessa.

                Os Livros da Magia, teve sua primeira edição publicada pelo selo Vertigo em 1990 e, depois de 23 anos continua sendo um dos melhores trabalhos não só de Gaiman, mas de todo universo fantástico em graphic novels. Você viaja com Tim Hunter por uma infinidade de mundos e capta uma série de pontos de vista diferentes sobre o que é a magia, o tempo e a existência, em uma história que tem em seu cerne um dos argumentos mais antigos e sólidos da fantasia: “existe se você acreditar”. O leitor, assim como Hunter, adquire o papel de “orelha” um tipo de personagem recorrente na fantasia. O “orelha” é aquele personagem que não tem conhecimento do ambiente, das regras ou história a qual participa, mas que, durante a trama, aprende o que é fundamental para o entendimento de onde está e seu papel no mundo. Em meio a crises criativas como a que passamos últimos anos, reler um material de tamanha elegância, criatividade e respeito é um alívio, mas ao mesmo tempo um sinal ruim, de que tempos criativos tendem a demorar um pouco mais.

               Por ter sido um periódico, Os Livros da Magia trazem uma série de linguagens visuais diferentes e, assim como a história em si, muito atuais. Podemos destacar, entre todos os artistas participantes, John Bolton, um dos grandes ilustradores do jogo Magic: The Gathering. John apresenta uma linguagem extremamente interessante de traços leves contra texturas e ilustrações densas e vice-versa, ilustrando a dualidade universal da ordem e do caos. Além dele, Pete Gross conseguiu demonstrar com competência a passagem dos personagens de um mundo para outro.

                Reviver Os Livros da Magia e trazê-lo aos olhos de novos leitores foi um tiro certeiro da Panini, que trouxe a qualquer leitor de quadrinhos um material obrigatório para sua biblioteca particular. Não há muito mais o que dizer a respeito, a não ser destacar novamente que se trata de um dos melhores trabalhos em quadrinhos de todos os tempos. É um tour pelo mundo tão vasto, rico em detalhes e  desesperador de Neil Gaiman que, talvez, seja o grande mago de nossa era. Eu acredito, logo, para mim, ele é.