Os Miseráveis | Crítica do filme

Os Miseráveis | Crítica do filme

nota5Os MiseráveisEu sou um cara empolgado por natureza, e às vezes esse minha empolgação tem que ser contida dentro de uma sala de cinema. Hoje foi uma delas, quando os créditos de Os Miseráveis começaram. Minha vontade era de levantar e aplaudir junto com toda carga de emoção que o filme me passou. Em 1862 quando foi publicada pela primeira vez a obra de Victor Hugo, um presente foi dado à humanidade. Uma história de amor e valorização ao ser humano estava escrita e seria posteriormente eternizada em outras mídias como teatro, televisão e cinema. Hoje, saindo da sessão de imprensa de Os Miseráveis, percebo que outro presente foi dado, mas à sétima arte. O diretor Tom Hooper (O Discurso do Rei) fez a versão definitiva nos cinemas  desse clássico da literatura.

Desde o começo do filme percebemos como o diretor trabalha com os níveis sociais, e durante toda a projeção podemos ver que sempre a demonstração hierárquica está presente nos planos que os personagens se encontram. Em certos momentos ele opta por deixar a câmera na transversal nivelando o superior com o inferior. Isso já nos tráz diversos pensamentos, ainda mais quando tais artifícios de direção são mesclados com a história.

Podemos dividir o filme em três partes distintas, com um arco dramático que acompanha Jean Valjean (Hugh Jackman) e Javert (Russell Crowe) durante todo o período que vai desde 1815 na Batalha de Waterloo  a 1832 nos conhecidos motins de junho. Na obra de Victor Hugo cada personagem central é um livro diferente que começa por Fantine e vai até Marcus, passando por Cosette, Thénardier,  Éponine e  Gavroche. No filme, apesar de todos esses personagens conseguirem seus momentos, o foco se faz em Fantine (Anne Hathaway) e sua filha Cosette (Isabelle Allen / Amanda Seyfried).

O Globo de Ouro dado a Hugh Jackman e Anne Hathaway  se tornam completamente compreensíveis ao assistir os 10 primeiros minutos de filme. A condução que cada um faz com seus personagens é de assustar tamanha dedicação. O drama da miséria é compartilhado com o espectador, e a busca de compreensão de um caminho a ser seguido pelos personagens acaba sendo refletido na opção do diretor em dar diversos clouses nos rostos e desfocar o restante. Em certas sequências, como o a da música I Dreamed a Dream, os 3 a 5 minutos de canção são inteiros focados nas expressões de sofrimento de Anne Hathaway em uma única tomada. A claustrofobia da prisão interiorizada da personagem é transmitida para o espectador. De longe é o trabalho mais incrível que a atriz fez até hoje.

O filme consegue ser tenso do começo ao fim, porém temos uma fuga cômica com os personagens de Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter que mesmo sendo exagerados mantêm o equilíbrio histórico e dramático que o filme precisa. Eles fazem o casal que estão com a guarda de Cosette antes dessa ser adotada por Jean Valjean. O interessante é perceber que cada personagem possui um arranjo musical próprio, sendo que o usado no do casal é realmente o mais ‘fun’ de todo o filme, combinando com caracterização de figurino e movimentos de cada um.

O filme é inteiramente cantado, um gênero de musical que pessoalmente eu não gosto. Contudo as canções e letras são tão bem compostas que fazem as quase três horas de projeção parecerem 30 minutos. Elas têm a fluidez e sentido necessários para manterem o ritmo certo com o decorrer da projeção, eliminando qualquer posicionamento enfadonho que os filmes do gênero geralmente têm. Uma coisa até interessante de ser observada é o fato de em alguns filmes usam as músicas para enxugar de roteiro, eliminando diálogos de determinadas cenas. Enquanto as cenas rolam sem diálogos as músicas completam o cenário. No caso de Os Miseráveis é extremamente o oposto. Todas as letras trazem informações sobre a história e/ou personagem ali descrito. Elas fazem o filme ir para a frente.

O diretor também não poupou realidade nas cenas em que os personagens caem no esgoto. Em um primeiro momento achei que foram excessivas para o filme. Os esgotos quando representados nos filmes sempre são maquiados deixando-os mais “limpos” na tela, e isso não acontece em Os Miseráveis. Percebe-se que há uma reação negativa no público, um grande sentimento de nojo. Depois de um certo tempo refletindo dentro do contexto do filme, entendi a necessidade de mostrar toda aquela fossa e transmitir tais reações na platéia. A analogia entre os dois personagens dessa cena mostra o paradoxo de caráter e estado de cada um.

Interessante ver como Hollywood está atualmente buscando na história argumentos para seus filmes. Assim como Lincoln e Django Livre utilizam da Guerra Civil nos Estados Unidos como pano de fundo, em Os Miseráveis a Revolução Francesa serve de cenário para personagens, que possuem apenas a esperança como aliada, possam lutar usando seus sonhos como armas. Ao terminar o filme creio que será necessário alguns minutos para que você consiga se recuperar da overdose emocional que a história e músicas mescladas com uma fotografia e direção excepcionais irão lhe passar. Uma grande reflexão sobre a vida e como somos frágeis perante ela irá tornar o filme ainda mais significativo. “Olhar para baixo” e ver o quanto existem pessoas precisando de ajuda e ignorar a existência delas é mais comum do que imaginamos, e isso o filme amplifica em seu contexto de miséria e solidão.