Sem Filtro | Crítica do Filme

Sem Filtro | Crítica do Filme

Sinopse:

“Pía (Paz Bascuñán) está à beira de uma crise: Seu chefe a desrespeita, seu marido a ignora, seu enteado não atende suas ordens, e seu melhor amigo não a ouve. Pía tem uma forte dor no peito e depois de tentar de tudo para curar ela decide se submeter a um tratamento de acupuntura. O médico chinês descobre que a dor de Pía é causada por sentimentos reprimidos e com uma técnica antiga que ele tira ”o filtro” dela: a partir de agora, Pía não vai filtrar e perceber que a única maneira de curar é para dizer tudo o que ela pensa … O que não vai trazer bons resultados.” — Via Filmow.

Diretor: Nicolás Lopéz

Elenco:

Paz Bascuñán, Ariel Levy, Antonio Quercia, Ignacia Allamand, Lucy Cominetti e Paulo Brunetti

SOURCE: Remezcla (Fair use)

Uma produção chilena sem um orçamento gigante – mas que deu certo com um roteiro moderno e história bem atual, Sem Filtro é um filme com base simples, e que através do gênero comédia dramática, é também um longa para reflexão.

O filme, lançado em 2016, conseguiu ótimos resultados em bilheteria e estava com moral alta logo na estreia — foi lançado no renomado Festival de Cinema de Málaga. No Chile, por exemplo, tornou-se a estreia mais vista da história do país, ultrapassando a marca que pertencia ao sétimo episódio da saga Star Wars. Um feito e tanto para o diretor da obra, Nicolás Lopéz, chileno que, quando o filme foi realizado, tinha apenas 33 anos de idade.

Apesar de o filme ser gravado com cenas internas na maior parte das vezes, ele tem algumas externas que embelezam o longa. Gravado no Chile, um país de belas atrações para os visitantes, tem como pano de fundo a capital, Santiago – que é retratada muito bem pelo diretor e isso ocasiona bonitas fotografias.

A base do roteiro é um pouco clichê e isso pode incomodar quem não gosta de longas previsíveis, mas há pontos na história que superam isso. O filme gira ao redor da protagonista Pía Vargas (Paz Bascuñán), uma publicitária bem-sucedida de 37 anos que trabalha na agência fictícia Blackboard. Na teoria e para o mundo externo, Pía é uma mulher que tem uma rotina perfeita: um marido bonito, artista e inteligente; emprego estável; casa sofisticada e um carro imponente.

Na rotina real, a vida da protagonista Pía não é tão perfeita como parece. O marido, Antonio (Antonio Quercia), não deixa ela dormir, e a primeira cena do filme é um exemplo disso. Antonio é dono de um ronco insuportável, que incomoda a protagonista todas as noites. O apartamento, de alto padrão, tem um inquilino que não deixa os vizinhos dormir com festas intermináveis.

O emprego é um problema com o dono da agência que não tem experiência e não sabe o que está fazendo. Até mesmo o carro é um problema quando ela não consegue nem sair do prédio com o carro do vizinho baderneiro que bloqueia a saída.

Junte tudo isso e Pía tem uma rotina que vai se acumulando. Para piorar, as pessoas que estão ao redor dela —e a sociedade no filme em si — ficam imergidas no celular e na dependência do Whatsapp como se fosse este uma extensão do corpo.

É nessa parte que o diretor Lopéz acerta em cheio. O filme é uma crítica a essa sociedade moderna do século XXI em que muitas pessoas simplesmente não conseguem olhar no rosto da outra enquanto estão conversando na mesma mesa. Uma cena em particular chama atenção quanto a isso. Quando Pía procura a melhor amiga, Macarena (Ignacia Allamand), para desabafar sobre os problemas pessoais, a amiga não faz nada além de responder mensagens no celular enquanto finge que está escutando aos problemas da publicitária. O único momento quando ela conversa com Pía, nos olhos e sem a interferência do celular, é quando ela não consegue guardar uma dor dentro de si por causa do ex-namorado estar usando o Tinder e não colocar “like” no perfil dela.

Esse é o principal acerto de López na direção: ele consegue mostrar em diferentes partes e situações o quanto as pessoas da atual geração estão frias, no geral. Os problemas reais, do cotidiano, sempre parecem que ficam em segundo plano em relação aos grupos do Whatsapp. A relação entre as pessoas próximas também é sem sal, retratando a distância que a internet provém para as pessoas do mesmo círculo.

O filme, por mais clichê que possa parecer, tem esse poder de nos fazer refletir sobre o nosso papel na sociedade: será que tudo precisa se resumir as mensagens das redes sociais? Para Pía, uma mulher de 37 anos de uma geração atrás e que não cresceu emergida na internet, ela não consegue achar algo natural nesse mundo virtual.

Quando todos os problemas acumulam e ela não encontra nenhuma amiga para desabafar sobre o que está acontecendo, Pía procura um médico alternativo para tentar curar os problemas. Quando ela recebe um tratamento diferente do padrão, baseado em acupuntura, ela simplesmente liberta tudo que queria falar para as pessoas ao redor e o nome do filme, sem filtro, ganha sentido.

SOURCE: IMDB (Fair use)

É quando Pía “estoura” que a atuação da protagonista se destaca. Bascuñán é muito feliz em dar vida a uma personagem que passa por fases completamente diferentes dentro do mesmo filme. Com um jeito original e com muita caracterização, Pía vira o sentido do filme.

Quando Pía deixa a vida estressante no passado e para de ligar para os problemas pequenos do dia, ela passa a aproveitar pequenos prazeres da rotina que antes ela não poderia — como, por exemplo, dormir até tarde e poder aproveitar um bom banho sem preocupação. É nesse momento de virada no rumo da personagem que o diretor mostra mais uma vez uma crítica à sociedade.

O humor está presente na maior parte das cenas, mas o longa tem seus momentos de drama em que é possível sentir a dor da protagonista. “É um filme de bom humor e que consegue mesclar a realidade atual com um pouco de exagero do diretor, mas é algo que o diretor faz de forma proposital e os atores dão vida a esse sentimento de exagero nas cenas”, comenta o especialista em cinema Cristóbal Buono, em análise do filme.

Todos os atores se destacam no filme, não há nenhum que fica sem função e não retrata a situação da maneira que ela deveria ser. Até mesmo o técnico da internet que resolve um problema no apartamento de Pía, que aparece em três cenas diferentes, consegue ter um brilho em alguns diálogos que acrescentam para a história.

SOURCE: Filme B (Fair use)

A trilha sonora é bem escolhida. Inclusive, a última cena do filme é tocada sob o som de “Peligroso”, do cantor Nick Bolt, que dá o senso de independência da mulher moderna que não precisa dar satisfação para ninguém e que pode tomar conta de si sendo feliz sozinha.

A principal falha, no entanto, é justamente a falta de surpresa no roteiro e esse é o principal motivo pela avaliação baixa no IMDB. É possível sacar qual vai ser o fim do filme logo nas primeiras cenas, e muito do que acontece é previsível para quem presta atenção nos detalhes do longa.

Não é um filme para assistir com grandes expectativas, mas é uma grata surpresa. Por mais que, pela sinopse, ele pareça ser um pouco bobo e de história pouco criativa, é possível entender o alvoroço chileno quando esse filme foi lançado — claro que não é tão bom a ponto de ser melhor do que Star Wars, por exemplo, mas é uma produção louvável.

Para quem quiser assistir Sem Filtro, é possível encontra-lo no catálogo do Netflix Brasil — inclusive, a produção foi financiada pela Netflix.

Com uma direção boa e atuações de tirar o chapéu de atores que dão alma a ideia do diretor, é possível assistir Sem Filtro como um filme de sessão da tarde para dar boas risadas ou como um filme para refletir sobre o seu papel na sociedade tomada pela internet e as conversas nas redes sociais.