Uma História de Amor e Fúria | Crítica do Filme

Uma História de Amor e Fúria | Crítica do Filme

nota4.5Uma História de Amor e Fúria_cartazMuitas vezes o cinema nacional revisitou a própria história, porém em nenhuma dessas foi em um longa tão ousado e original quanto Uma História de Amor e Fúria. Sua função não foi apenas contar momentos marcantes na trajetória da nação, mas também mostrar através dos olhos dos menos favorecidos o quanto toda história é manipulada e seus heróis, na sua maioria das vezes, romantizados.

Na trama do longa, temos 4 momentos distintos que mostram o mesmo personagem viajando através de 6 séculos, desde um Brasil recentemente colonizado, passando pela balaiada em 1838, o regime militar até um inventivo Brasil de 2096 no qual a luta será pela água. O filme visto pelo herói imortal, que se transforma em um pássaro toda vez que desencarna, tem como motivação a busca de sua amada Janaína e em muitos momentos conseguimos identificar iconografias brasileiras dentro do universo que os dois personagens atuam.

Com uma estrutura simples de herói, mocinha e vilão, o filme sempre mostra que os tempos podem mudar mas sempre teremos aqueles que sofrem, aqueles que maltratam e aqueles que salvam, independente do cenário moldado. O diretor, inteligentemente, não pensou em classificação etária para seu filme, e o definiu como um filme adulto e pesado, colocando no contexto diversos pontos polêmicos como nudez, estupro, roubo e assassinatos. Omitir esses elementos dentro da proposta do filme seria uma perda na busca de veracidade com as realidades das épocas retratadas.

A estética do filme vai fluidamente mudando com o decorrer dele. Intencionalmente a diretora de arte buscou nas cores de cada estação a retratação de seus elementos. Começamos com primavera no primeiro ato, verão no segundo (correspondente a escravidão), outono no terceiro (anos 60) e terminamos com cores que representam o inverno no futuro. Curiosamente encontramos uma relação na história onde na primavera os personagens estão muito mais humanos, vivendo através do amor e da ajuda mútua enquanto no inverno a vida desses personagens é fria, distanciada e a humanização é mínima.

Os traços dos personagens vão se complexando também com o decorrer da trama. Enquanto no primeiro ato são traços simples, minimalistas com cores brandas quase pastel, no último temos uma animação que possui um uso mais intenso no 3D, com maior detalhismo e repleta de elementos, que não ficam a desejar aos visuais dos Ski-fis Hollywoodianos. O diretor Luiz Bolognesi teve muita inspiração nos quadrinhos, principalmente nas revistas Heavy Metal para compor essa atmosfera do filme.

O ponto fraco fica por conta da falta de incentivo que produções como essa possuem no Brasil. Para baratear, a animação possui 15 quadros por segundo tentando se assemelhar com os animes japoneses, porem elas ficaram um pouco mais estáticas do que deveriam. Se o diretor optasse por uma animação de 24 quadros, certamente teríamos o filme somente daqui a uns 5 anos devido à pequena equipe e falta de verba que tiveram para trabalhar nos últimos 10 anos (sim, essa produção demorou 10 anos para ser realizada).

As vozes de Camila Pitanga de Selton Melo são muito características deles, porém não atrapalha em nada o decorrer da história. Já a dublagem de Rodrigo Santoro é incrível, pois em nenhum momento você consegue identificar que é o ator falando e a cada personagem que ele faz tem uma voz diferenciada . O trio ficou em perfeita sintonia com seus personagens, um dinamismo muito difícil de acontecer principalmente por eles não atuarem ao mesmo tempo.

O que o diretor Luiz Bolognesi não contava há 10 anos, quando começou seu projeto, é que pouco antes do lançamento de seu filme os irmãos Wachowski fossem buscar uma premissa bastante semelhante em seu longa lançado em 2012, Cloud Atlas (A Viagem). Infelizmente é impossível não notar as semelhanças entre as premissas. Entretanto, nada substitui a brasilidade e as releituras curiosas que Uma História de Amor e Fúria possuem sobre a história do Brasil, e, como o próprio filme nos vende: “viver sem conhecer o passado é viver no escuro“, e o filme prova que o Brasil está num apagão há alguns séculos.