A Freira | Crítica do Filme

Em 2013, James Wan nos trouxe o primeiro “Invocação do Mal”. O diretor buscava revitalizar os “terrores de estúdio” (filmes de terror com grandes orçamentos), uma vez que o gênero já estava perdendo espaço rapidamente para as pequenas e inventivas produções (Junto com Jason Blum, Wan também tem sua parcela de crédito por aqui com “Jogos Mortais”). A franquia acabou tendo sucesso o suficiente para que, além de uma sequência, também fosse produzido um filme derivado focado na aterrorizante boneca “Annabelle”. A Warner percebeu que James Wan poderia estar construíndo um caminho promissor para o estúdio nesta era de universos compartilhados, e logo vieram mais projetos que deveriam ser produzidos nos anos seguintes para expandir a franquia. Dentro deste clima de empolgação, veio o mais novo derivado “A Freira”.

O filme dirigido por Corin Hardy (o mesmo de Floresta Maldita) se propõe a contar a origem da entidade demoníaca “Valak”, que foi introduzida emInvocação do Mal 2 e deixou diversos elementos a serem explorados pelo derivado. O objetivo seria expandir e contextualizar a personagem, adicionando ainda mais peso aos outros filmes da franquia, além de aproveitar seu visual muito bem recebido pelo público para construir cenas memoráveis. Havia muito potencial por aqui, incluindo cenários estoantes, um contexto religioso intrigante e propostas audaciosas.  O filme, no entanto, desperdiça tudo que está ao seu dispor.

A começar pelos personagens. Taissa Farmiga interpreta uma noviça rebelde (se fosse Julie Andrews, teríamos outro texto por aqui) que é convocada pelo Vaticano para acompanhar um padre investigador (Demian Bichir) à Romênia, e tentar descobrir se o local “ainda é sagrado”.  A conveniência com que os personagens são envolvidos em diversos pontos da narrativa é extremamente desestimulante, e faz com que não haja nenhum real sentimento de realização em suas trajetórias. O descaso acaba sendo maior com a falta de aprofundamento destes personagens, motivados por soluções de roteiro pouco inspiradas e personalidades superficiais.

O design de produção é o único grande aspecto de “A Freira” que merece elogios. Carregando a mesma consistência que a franquia vinha apresentando (também comum à franquia “Sobrenatural”), os elementos cenográficos e as caracterizações assustadoras possuem uma dedicação evidente, e devem constituir uma experiência magnífica durante a produção do filme (Provavelmente, o motivo pelo qual deve ter sido produzido, em primeiro lugar). Mas ainda assim, todo este aspecto visual acaba sendo desperdiçado, uma vez que a narrativa vai passando por estas boas peças sem construir apropriadamente a tensão, ou criar qualquer relevância para a cena.

Construção de tensão é outro problema série deste filme. Corin Hardy não parece compreender o cansaço que retrocedeu o gênero de “terrores de estúdio” antes que a franquia o trouxesse de volta. O público que consome este tipo de cinema já está mais do que familiar com os diversos recursos que sempre foram empregados sem a menor criatividade, em função de sustos baratos e choques vazios. O famoso “jumpscare”, por exemplo, é usado a esmo por aqui, e de maneira quase sempre ineficiente, pois não houve expectativa que o antecedesse. Não houve construção, logo não há emoção.

E quanto ao personagem titular, fez-se um grande desserviço perante a maneira como Valak conseguiu adentrar a cultura pop com sua introdução, alguns anos atrás. São poucos os momentos de real emoção que envolvem este intimidador antagonista, e ainda desperdiçaram a chance de elevá-lo além de uma mera estética assustadora. Afinal, se você tem um demônio dentro um convento, e está contando uma história sobre uma freira, ao menos dedique um tempo à construção de diálogos que reconheçam este contexto tão rico. Ao invés disso, ficamos com frases banais como “Parece que a vila irá perder o seu idiota”, enquanto o demônio segura uma escopeta…

“A Freira” é um grande passo em falso para a jornada desta franquia que transborda potencial. Se os filmes forem aprovados com base no seu apelo visual, estaremos de volta ao que o gênero tentou, por tanto tempo, se distanciar. Fãs da franquia não deixarão de conferir o filme, mas para aqueles que preferirem adentrar este universo, escolham qualquer outra porta de entrada.


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