A Noite Maldita – Uma prequela de André Vianco

Anos atrás, em uma coletiva para fãs e imprensa dada no lançamento do então inédito O Turno da Noite Vol. 3: Livro de Jó (Novo Século – 2007), André Vianco disse para todos que queriam ouvir – especialmente para este que vos escreve, que havia perguntado a ele: “A Saga do Vampiro Rei, iniciada em Bento (Novo Século – 2003) e finalizada em Vampiro Rei vol. 2 (2005) teria respostas a perguntas nunca respondidas e não demoraria para sair”. Pois bem: considerando o livro de que vamos falar hoje aqui, temos então duas promessas longe de serem cumpridas.

Lançado exatos dez anos depois do primeiro livro da saga, A Noite Maldita – As Crônicas do Fim do Mundo (Novo Século – 2013) é uma prequela – ou prequel – da saga do Vampiro Rei, a mais bem sucedida do escritor André Vianco, famoso por criar uma ambientação consistente de uma realidade vampírica bem próxima de nós, mais próxima ainda se você for de São Paulo (muito mais ainda se você for de Osasco ¬¬). A história conta os acontecimentos da chamada “Noite Maldita”, descrita nos primeiros livros da saga como o ponto de origem do surgimento dos vampiros, o que alterou para sempre o modo de vida das pessoas. Um mote criado uma década atrás e que talvez seja a grande ideia da carreira de escritor de Vianco. Se você é ouvinte do podcast ‘Na Tomada’, deve se lembrar, em nosso episódio sobre zumbis, dos comentários de Guilhermão sobre os vampiros descritos no livro, verdadeiros monstros, incomparáveis com aqueles oriundos de uma saga migrada para o cinema a qual me recuso escrever o nome aqui. Além disso, por ser um prequel, teoricamente não afetaria a eventual leitura do que já foi escrito anos atrás, causando até, para aqueles que ainda não conhecem a ambientação, um tipo de impressão bastante raro da realidade criada pelo escritor. A Noite Maldita tem mais de 600 páginas que qualquer ser humano consegue atravessar em pouco tempo; este é o grande trunfo do já experiente escritor osasquence, capaz de descrever situações comuns e incomuns ao nosso cotidiano com dealhes mas mantendo a fluidez da leitura. Isso, de certa forma, “planifica” alguns dos personagens, mas não chega a empobrecê-los psicológicamente, causando no leitor a impressão de que a história está progredindo bem e ele, como leitor, está realizando seu trabalho de forma muito eficiente.

Mas nem tudo são flores – ou pescocinhos lindos cheios de sangue – no material criado por Vianco. Aliás, talvez a quantidade de problemas que encontramos nos livros do autor seja bastante exagerada, o que poderia ter melhorado já nos dias de hoje, já que são detalhes que fazem uma enorme diferença. Depois de dez anos, alguns vícios ainda podem ser vistos e seria uma pena pensar que teriam se tornado hábito no processo criativo do autor, tais como diálogos inconsistentes regados a um exagero de uso de marcas e as relações um tanto estranhas com elas por se tratar de um livro, deixando o leitor na dúvida se alguns trechos foram de algum jeito patrocinados por websites de notícias, empresas telefônicas ou montadoras de carros. Uma tentativa falha de tornar diálogos mais naturais, mas que é completamente contradita pelo uso de ênclise (“tornarei-me”, “confiar-lhe”) pelas camadas mais populares da sociedade. A realidade alternativa de André Vianco seria composta por uma sociedade extremamente culta e viciada em metonímias?

Não haveria como deixar de notar também a série de erros na edição do livro, que praticamente passam por quase todas as etapas da concepção do produto, da diagramação à revisão textual, passando até mesmo pela estratégia de venda do livro. O que custa escrever “parte 1” na capa?

nota 3

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