Kin | Crítica do Filme

O mais novo filme estrelado por James Franco é produto desta nossa época atual onde as grandes produções só conseguem ser reconhecidas pelo público quando estão atreladas à uma franquia já estabelecida. Filmes independentes, de médio orçamento, ou com propostas inovadoras dificilmente conseguem atrair a atenção do espectador que está mais preocupado em teorizar as possibilidades do próximo capítulo de sua saga favorita. Sendo assim, “Kin” é um filme ordinário e pouco memorável… até que não é mais.

O filme segue estruturas bem comuns ao gênero de ficção científica pela maior parte de seu tempo. Adiciona camadas de tensão e perigo iminente com os protagonistas em fuga, e vilões obstinados em seu percalço. Aprofunda as relações entre seus personagens a cada nova parada deste quase “road movie”. E procura complementar os diferentes obstáculos da jornada com conflitos fáceis de se assimilar e simpatizar, em meio às cenas de ação pouco inspiradas e um drama social razoável.

“Kin” traz a história de um jovem sucateador que vê sua vida virar de cabeça para baixo após o irmão mais velho retornar da cadeia com um enorme dívida a ser paga para os mafiosos da cidade. As circunstâncias acabam terminando em tragédia, e os irmãos são forçados à fugir por suas vidas. E para tornar esta história digna do gênero, o jovem encontra uma estranha arma laser que intimida a todos que possam confrontá-lo. Há diversos momentos durante a jornada em que estes diferentes aspectos não são integrados com a sutileza necessária, mas são posicionados de maneira eficiente para que o espectador não acabe se entediando com a história.

O filme aposta no carisma e na capacidade de identificação de seus personagens para prosseguir com uma trama pouco original. Os vilões, embora ameaçadores, são superficiais demais para criar qualquer relação genuína com o espectador, e mesmo James Franco (que aqui, reencarna parte de seu papel em “Spring Breakers”) faz o que pode para representar os conflitos do personagem, além de uma outra caracterização mais marcante que é capaz de adicionar, mas não consegue estabelecer uma imprevisibilidade envolvente.

Alguns coadjuvantes acabam sendo introduzidos com mais relevância e organicidade do que outros. A personagem de Zoe Kravitz acaba trazendo uma boa dinâmica com os protagonistas, e demonstra (mais uma vez) que tem plena capacidade de adentrar as listas de atriz cobiçadas por Hollywood para uma variedade de papéis. Carrie Coon, no entanto, interpreta uma das personagens que parece ser jogada na história fora do espaço correto, e serve mais avançar o roteiro sem muita coerência com as dinâmicas estabelecidas até então.

A construção deste universo ligeiramente futurista traz resultados mistos. Por um lado, consegue criar um contexto válido e sutil, com alguns elementos interessantes de como esta sociedade utiliza a tecnologia à disposição. Por outro, não consegue escapar de clichês comuns do gênero, principalmente em produções com orçamento mais baixo. Não há muita inventividade, mas a execução é eficiente em boa parte do tempo. A fotografia segue o mesmo padrão, evitando o tom melancólico ou depressivo que seria plausível encontrarmos em “Kin”, preferindo trabalhar os contrastes sem tanta saturação.

Eis que, então, chegamos aos dez minutos finais do filme, e grandes reviravoltas coloquem em revisão tudo que foi apresentado até aqui. Há o choque de se ver um ator muito conhecido do público atual surgindo sem cerimônias, e as adições ao universo procuram justificar tudo que foi construído até aqui. Mas não deixamos de ter a sensação de que o filme se apoiou demais neste seus últimos momentos, e deixou a jornada seguir o seu caminho tradicional sabendo que a memorabilidade só viria à tona com esta grande reviravolta.

“Kin” é um filme pouco interessante, que torna-se mais interessante com sua resolução imprevisível. Mas como tudo que é imprevisível, o efeito só será potencializado se houver construção. É necessário que o espectador sinta que seu trajeto até aqui não foi meramente desperdiçado, ou justificado de maneira fácil demais. É evidente que o filme prepara o terreno para, quem sabe, iniciar uma franquia de um jeito mais sutil do que encontramos hoje nos grandes blockbusters. Ainda assim, a falta de inspiração durante sua maior parte deve ser o suficiente para desengajar a maioria de seus espectadores antes que tenha a chance de produzir seu grande truque final.


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