Mentes Sombrias | Crítica do FIlme

 

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Sinopse:
Em um mundo apocalíptico, onde uma pandemia mata a maioria das crianças e adolescentes da América, alguns sobreviventes desenvolvem poderes sobrenaturais. Eles então são tirados pelo governo de suas famílias e enviados para campos de custódia. Ruby (Amandla Stenberg), uma das sobreviventes, consegue escapar com outras crianças e sua vida muda para sempre.Diretor
Jennifer Yuh Nelson

Elenco:
Amandla Stenberg, Mandy Moore, Bradley Whitford, Gwendoline Christie, Harris Dickinson, Patrick Gibson, Miya Cech, Mark O Brien, Wade Williams

Data de estreia:
16 de agosto de 2018

Histórias adolescentes sobre sociedades distópicas ganharam um espaço invejável na última década. Com o sucesso de “Harry Potter” e “Crepúsculo”, os estúdios perceberam que existe um grande público sedento por adaptações voltadas a esta nova geração. Adicione um pouco mais de grandiosidade e algumas críticas sociais, e pronto: Terá a receita perfeita para a adoração. (Ao menos, era isso que o sucesso de “Jogos Vorazes” prometia). No entanto, diversas produções não tão inspiradas chegaram às telas do cinema nos últimos tempos tentando apostar nesta receita, e “Mentes Sombrias” é apenas a mais recente.

“Mentes Sombrias” conta a história de um mundo onde todas as crianças e adolescentes foram subitamente tomados por uma mutação (no melhor estilo X-Men), com a grande maioria sucumbindo à estas mudanças de maneira fatal. Os jovens restantes eventualmente acabam sendo levados para verdadeiros campos de concentração, e lá são designados como inofensivos ou perigosos de acordo com a classe de suas novas habilidades. É uma trama superficialmente intrigante, com um certo potencial que poderia ser explorado perfeitamente em pleno 2018, onde temos crianças de verdade sendo levadas de seus pais na fronteira dos Estados Unidos.

O primeiro ato, no entanto, carrega a (visivelmente) difícil tarefa de expor todas estas circunstâncias enquanto estabelece a protagonista do filme, e acaba entregando diversas informações e desenvolvimentos de maneira apressada e sem o peso dramático necessário para o espectador realmente conseguir criar um paralelo com o mundo real. Este paralelo (muitas vezes, inconsciente) é essencial para toda e qualquer obra de ficção científica, uma vez que, através dele, somos capaz de sentir o temor e a angústia de uma realidade alternativa como a de “Mentes Sombrias”.

A pressa e a falta de consideração com a escala da história acabam se estendendo pelo resto do filme e, então, percebemos que o problema não está necessariamente na trama ou no texto em si, mas na forma como escolharem adaptar está história (baseada também, é claro, em uma saga de livros).  A sensação ao final da sessão, é de que “Mentes Sombrias” mais parece uma série de dez episódios editados para caber em um filme de duas horas, do quê um filme propriamente dito. Personagens vem e vão, cujo peso na trama é pífio (mas que, muito provavelmente, possuem uma construção mais aprofundada e justificada na obra original), e diversas cenas parecem estar ali apenas para serem checadas fora de uma lista, composta por tudo que o livro traz de mais memorável.

Mas, como citei no primeiro paragráfo, não basta apenas criar um universo instigante repleto de elementos fantasiosos (ou científcos, neste caso, muito mal elaborados e expostos). É necessário inserir críticas sociais e reflexões acessíveis, porém válidas, sobre o estado deste universo e da sociedade que nele se encontra. Nesta etapa do processo, no entanto, “Mentes Sombrias” replica um péssimo habito atual de diversas produções hollywoodianas: Acreditar que o progressismo, a inclusão e as mensagens inspiradoras por si só serão suficientes para emocionar o público, com apenas o mínimo de construção e envolvimento para tais resultados.  O filme traz comentários incrivelmente superficiais sobre questões como segregação, amor próprio e abuso, sem realmente se dispor a instigar qualquer tipo de reflexão sobre o assunto. Tudo é acelerado demais, sempre em função do andamento da trama, e muito potencial vai sendo deixado pelo caminho.

A evolução dos personagens, tanto a principal quanto os coadjuvantes, também acaba sendo vítima deste afobamento explícito. Os antagonistas são rasos demais para passarem qualquer tipo de ameaça palpável, e o grupo de amigos que cerca a personagem principal são constantemente reduzidos à esteriótipos com poucos (ou, as vezes, nenhum) traços de um arco narrativo capaz de gerar empatia no espectador. E falando em arcos narrativos, muitos dos personagens presentes no filme sequer recebem uma conclusão válida (até mesmo a trama em si, termina em um enorme gancho para uma díficil, porém imprescindível sequência), o quê só torna mais díficil o filme ser minimamente memorável.

Mas o roteiro em si, por mais corrido que seja, sempre pode ser trabalhado pelo diretor para que se encaixe nas cenas adequadamente. Falas escritas não possuem a mesma tonalidade ou peso dramático antes de serem devidamente tratadas e interpretadas pelo diretor e pelo ator. A direção de “Mentes Sombrias”  acaba sendo a maior culpada da plasticidade que pode ser percebida em cena. São vários os diálogos que, embora sejam fracos no roteiro, poderiam ter sido salvos por uma interpretação mais cadenciada e a devida construção do drama. Ritmo e tom são os fatores principais por aqui, e mereciam mais atenção.

“Mentes Sombrias” é um filme feito na máquina. Adicionaram os elementos que costumam ser bem recebidos pelo mercado, mas se esqueceram de contar uma boa história, com bons personagens, em meio à todo o seu apelo. Com tantas adaptações competentes crescendo no cinema (E, principalmente, na televisão), não há lugar para tamanha falta de inspiração e técnica.

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