Parque da Mônica | O que há de novo e o que sobrou do velho?

Há 21 anos eu pisei pela última vez no Parque da Mônica após ter frequentado o lugar por 25 vezes desde sua inauguração. Sempre fui um grande admirador de Maurício de Sousa e seus personagens, e a ideia de manter um parque inspirado às aventuras publicadas nos quadrinhos era o que tínhamos de mais próximo à Disney aqui no Brasil. Contudo, minha última ida ao parque se deu ao fato de ter crescido demais, e aos 12 anos já estar acima da altura permitida para frenquentar grande parte dos brinquedos. Os anos se passaram, muita coisa mudou dentro do parque, mas infelizmente não retornei ao parque que foi um marco em minha infância. Hoje, 21 anos depois, tive o prazer de retornar ao Parque da Mônica, mas não o mesmo que tanto frequentei no passado, mas sim uma nova versão preparada para a geração atual. Mas o que difere o antigo parque do novo Parque da Mônica?

Sinto até um certo privilégio em poder comparar tão bem as duas atrações, já que conheci como poucos o que foi o primeiro parque e agora posso, além de apenas frequentar, também usufruir de grande parte dos brinquedos do novo parque. Vou tentar fazer uma breve comparação do que foi e do que representa esse novo parque.

Lembro que o primeiro parque era um tanto quanto incompreendido entre muitos, já que se abstinha de atrações elétricas como montanhas russas, carrinhos bate-bate, atrações que giravam e colocavam os usuários de cabeça para baixo. A referência de parque de diversões na cidade, foi por muito tempo o Playcenter, que era um parque que tinha tudo o que era de mais moderno em questão de brinquedos de parque. O Parque da Mônica era um lugar onde a energia vinha dos visitantes. Havia três “brinquedões” com um trajeto por onde a criança passava por labirintos, piscina de bolinhas, pontes suspensas e a brincadeira sempre acabava em um tobogã.  Além dos brinquedões, haviam os brinquedinhos onde a lógica era igual, porém focados para crianças menores. Havia também um outro brinquedo que era um labirinto vertical. Tematizado com o fundo do mar, a criança tinha que encontrar o caminho para subir e encontrar a entrada do escorregador. Quem fosse nesses brinquedos certamente ao final do dia estava com o corpo dolorido de tanto exercício físico realizado. Tais brinquedos talvez não se mantiveram com o passar dos anos, já que em 2010, quando o parque fechou, muita coisa já havia mudado, e mais brinquedos elétricos haviam sido postos à disposição dos visitantes.

Já no novo Parque da Mônica, os brinquedos que exigem a força física do visitante estão mais restritos em brinquedos como o chamado hoje “Brinquedão do Chico Bento” onde a lógica se assemelha ao que tínhamos no antigo parque. É um grande trajeto com subidas e descidas que simula o universo dos quadrinhos do personagem que dá nome ao brinquedo. Diferentemente do primeiro parque, hoje adultos podem participar da brincadeira até o final. Um pouco menos interessante que o “Brinquedão do Chico Bento”, porém mais instrutivo, o parque também tem o “Vale dos Dinossauros”. A atração possui ilhas ligadas por pontes e em cada ponto há um informativo sobre algum dinossauro. A atração se completa com o visual bacana que se tem da atração “Horacic Park” que é rodeada de displays e árvores artificiais, que simula um grande parque com dinossauros. A ideia é excelente, porém faltou orçamento para que o produto ficasse mais realista. Alguns dinossauros mecatrônicos e uma ambientação sonora faria com que o brinquedo se tornasse ainda mais interessante.

Há ainda outras duas atrações que exigem movimentação do usuário. Trata-se da “Ce-Bolinhas” e “Engenheiros do Parque”. Ambas foram reaproveitadas do parque antigo, porém eu não conhecia, por terem sido implantadas após minha última ida ao local. “Ce-Bolinhas” é um complexo repleto de espingardas e canhões de pressão de ar onde o participante pode carregar os brinquedos com bolinhas de espuma e atirar em algum alvo. É uma bagunça difícil de não se entregar. O brinquedo ainda conta com um escorregador curvo, que eu não indico para adultos, pois a curva é bem acentuada e há necessidade de pegar impulso para conseguir sair. “Engenheiros do Parque” também é um complexo, porém mais infantil, onde a criançada pode pegar blocos e fazerem construções. Esse acabei não visitando justamente por ser uma atração focada ao público mais novo.

No parque antigo, apesar de poucas, ainda havia atrações tradicionais em parques de diversões, como o “Carrossel do Horácio” e a “Tumba do Penadinho”, esse que era o túnel do terror do parque, porém, como nada em Turma da Mônica é assustador, o túnel era divertidamente chamado de “terrir”. No Carrossel os tradicionais cavalinhos eram substituídos por dinossauros e seu topo formava uma simulação de névoa que encobria a montanha onde ficava sentado o tão querido personagem Horácio. Já na “Tumba do Penadinho” o visitante ia nadando por cenas construídas com animatronics. Todos os personagens estavam lá. Desde as boas vindas do Penadinho, passando pelo espirro do Frank que dava um baita susto, até a transformação do Lobi. É interessante lembrar também que, na lateral da grande construção em que funcionava a atração do Penadinho, havia esculpido o rosto dos personagens da turma simulando o Monte Rushmore. Era um detalhismo e cuidado com as atrações que valeram minhas visitas.

Já no parque atual, o forte são as atrações elétricas. O foco não é mais usar a energia das crianças para manter a atração ativa. Entre os grandes destaques do parque podemos encontrar a nova atração em homenagem ao Horácio que é o “Horacic Park”. O nome da atração se refere à historinha que é uma paródia de Jurassic Park que foi publicada na revista “Mônica” em 1993 e depois republicada em 2007 com a revista “Clássicos do Cinema”. A atração reaproveita a mesma estrutura deixada pelos moradores anteriores do parque, o “Parque do Gugu” e posteriormente “Parque Mundo da Xuxa”.  Ela foi completamente adaptada para se adequar ao universo do Horário. As canoas percorrem um riacho ao meio de uma mata com alguns displays de dinossauros até chegar ao ápice que é a subida e queda d’agua deixando todos os integrantes encharcados. Outro destaque é a “Montanha-Russa do Astronauta”, atração que também é reaproveitada dos moradores antigos e reformulada para o universo da Turma da Mônica. Apesar de bem suave e não ter nenhum looping, como o logo do novo parque erroneamente sugere, a montanha é completamente tematizada contendo uma trilha sonora própria e indicações de segurança na voz do próprio Astronauta.

O carrossel do novo parque é tematizado com a Turma da Mata, o chamado “Carrossel da Mata”. Ele por si só é extremamente bonito. Muito iluminado e bem desenhando, possui todos os personagens vistos nos quadrinhos. Para os adultos que podem ficar constrangidos em sentar no personagem, há banquinhos onde eles podem se sentar ao lado dos personagens. É talvez a atração mais detalhada e bonita do parque. Há também a “Roda Gigante da Turma” que se localiza logo na entrada. Por ser um parque coberto, claro que não se pode esperar muita altura do brinquedo, que possui apenas 5 cestas para que os visitantes de dois em dois possam dar uma volta no brinquedo.

Outro brinquedo elétrico do parque é a “Pescaria do Chico Bento” que é uma espécie de carrossel que se eleva. Os carrinhos são peixes e no topo fica o personagem com sua tradicional vara de pescar. Infelizmente nessa atração não podem entrar adultos. Há também no novo Parque da Mônica o tradicionalíssimo carrinho bate-bate chamado de “Trombada do Louco”. Apesar da pista não ser tão grande, a velocidade do carrinho é ideal para que o brinquedo não deixe o seu corpo dolorido com as batidas. Os carros são tematizados como se fossem tênis e é mais um retorno à infância.

Falando em Louco, é impossível não lembrar da “Casa do Louco” no antigo Parque da Mônica. Ela ficava no mezanino do parque, localizada logo em cima da “Tuma do Penadinho”. Era outra atração rica em detalhes que mostrava toda a árvore genealógica da família do Louco e suas nada habituais utilidades para os objetos. Impossível não recordar do carro ao lado de fora pendurado, ou da cadeira de praia em cima do telhado, ou até da porta de entrada feita com linguiças. No parque antigo havia apenas duas casas de personagens para visitar, a do Louco e a da Mônica, porém a cenografia em alto relevo reconstruía perfeitamente uma ambientação dos quadrinhos. A “Casa da Mônica” era uma grande casa de bonecas. Lembro que as pessoas se encantavam com o design e harmonia da composição dos elementos. Graças ao mezanino, lembro que era possível olhar a vila da Mônica do alto, sendo possível ver até os telhados bem desenhados e bem coloridos. A luz natural do antigo local fazia com que tivéssemos a sensação de estarmos ao ar livre, mesmo estando em um parque completamente coberto.

Com o anúncio do novo Parque da Mônica, uma das atrações anunciadas que mais empolgou o leitor dos quadrinhos foi a presença de outras casas de personagens, incluindo a da própria Mônica. Imaginava-se que essa seria um reaproveitamento do que já tínhamos no parque anterior, mas não foi. Há sim uma “Casa da Mônica”, um “Quarto do Cebolinha”, uma “Cozinha da Magali”, um “Atelier da Marina” e uma “Piscina de Bolinhas do Cascão”, mas o que não há é a imersão que o parque antigo proporcionava. No novo Parque da Mônica foi-se usado muito elemento impresso em placas, onde não há mais aquela tridimensionalidade que o parque anterior proporcionava. A “Casa da Mônica” consiste de um primeiro ambiente onde se tira uma foto com a personagem e se segue para um segundo cômodo, onde há o quarto montado. Menor e com menos elementos, o quarto não possui mais uma cerca de segurança e o visitante pode se aproximar mais da cama, guarda-roupas, penteadeira. Não é a mesma encantadora casa do parque antigo, mas está lá… Já as demais atrações são atrações interativas para crianças. No “Quarto do Cebolinha” a criança desvenda qual é o novo plano infalível, na “Cozinha da Magali” descobre a história de alimentos e tem dicas de alimentação saudável. Apesar de mais instrutivo, não possui o mesmo encanto que o nome da atração induz proporcionar. Tomara que façam melhorias futuras.

O que o novo Parque da Mônica erra em relação a cenografia, acerta com relação aos personagens. Antigamente era praticamente impossível conseguir uma foto com um dos personagens. Eles só eram vistos no showzinho do teatro ou em eventos específicos como as paradas e shows sazonais no palco externo. Mesmo eu indo 25 vezes ao antigo parque, nunca consegui tirar uma foto de recordação. Tudo foi diferente dessa vez. Logo na entrada o visitante recebe um mapa do parque que contém os horários das atrações no palco de eventos (já que não possui um teatro como no parque anterior)  e os horários que os personagens estarão disponíveis para fotografias. Mônica, Magali, Dorinha, Louco, Cebolinha, Cascão e Franjinha estão o tempo todo por lá andando pelo parque. Se o visitante esqueceu sua câmera, há a disponibilidade de fotógrafos profissionais para registar o momento, e depois a foto impressa poderá ser comprada.

Outra coisa que observei é como os personagens estão bem melhores que os do antigo parque. Foi feito um upgrade nas roupas e máscaras deixando tudo mais natural e parecido com os personagens dos quadrinhos. O show que é apresentado atualmente no palco de eventos se chama “O Sonho não Acabou”. Uma clara referência a que o parque foi um sonho para Maurício de Sousa e com o seu fim em 2010 tudo parecia ter acabado. A frase é retirada da música “Ser criança é bom” que encerrava o primeiro espetáculo do teatrinho do antigo parque e que agora encerra a apresentação dessa nova atração. Fica claro que diferentemente dos anos 90, hoje a quantidade de câmeras de vídeo que estão apontadas para o palco cresceu exponencialmente e não demora muito para que a apresentação inteira caia no Youtube. Certamente o parque irá reciclar as apresentações com frequência, diferente dos anos 90 quando demoraram anos para trocar a apresentação.

É impressionante o quanto há para se pensar e analizar sobre dois parques cobertos com a mesma temática, porém separados por 20 anos de existência. Sempre vi o primeiro Parque da Mônica como inovador. Já em 1993 foi disruptivo em dizer não ao modelo tradicional de parque e provou que atrações diferentes, onde se colocava o visitante para praticamente fazer uma academia, davam certo. Fora que também foi a frente de seu tempo. Lembro que foi meu primeiro contato com touchscreen (sim, em 1993, muito antes do iPhone).  Havia uma área de jogos onde as crianças montavam quebra-cabeças, resolviam charadas e pintavam personagens na tela do computador, usando a ponta dos dedos para isso. Nessa mesma área era possível aprender como usar um Fax e tirar uma Xerox. Eram inúmeros desenhos da Turma da Mônica em minha coleção que eu havia enviado via Fax dentro do parque.  E como se esquecer da agência bancária onde era possível abrir uma conta, aprender como funcionava a fabricação de dinheiro e ainda sair com um cartão de crédito, talão de cheques e dinheirinho fictícios? Era um parque moderno, onde se vislumbrava a importância da atividade física para as crianças, e ao mesmo tempo as preparava para a idade adulta.

Já o novo Parque da Mônica é um mérito irrevogável. Em um país em crise onde a dificuldade de se manter um negócio em pé é um desafio quase impossível, as empresas de Maurício de Sousa se mantém vivas, modernas e sem medo de inovar. Desde o lançamento da Turma da Mônica Jovem, há alguns anos, se via o que estavam preparando para o futuro. Maurício teve que reinventar seus personagens à beira de completar 50 anos, e isso deu uma visibilidade nunca vista para seus produtos. Abrir o parque agora em meio a tempestades econômicas é um feito inacreditável. O novo Parque da Mônica pode não ser todo o marco que foi para mim na infância, só o tempo dirá o quanto ele marcará uma geração, contudo hoje ele é único em uma cidade carente de atrações do gênero. Sem Playcenter e nem Parque do Gugu como concorrentes, o Parque da Mônica está de pé e funcionando muito bem. Mesmo com preços que nem todos possam hoje pagar, é um valor extremamente justo quando comparado a atrações menores que possuem tempo de entretenimento menor, como é o caso do próprio cinema. Paga-se 30 reais na entrada de cinema para se entreter por duas horas, e se paga 178 reais para se entreter duas pessoas durante um dia inteiro dentro do parque. Lembrando que há ainda a opção de meia entrada, onde o ingresso individual sai por 64,50 (visto que grande parte do público alvo do parque é estudante). Ou seja, é uma proporção justa de entretenimento, ainda mais pelo que o parque oferece.

Senti falta no novo Parque da Mônica dos detalhismos que o parque anterior tinha. Algumas atrações como a “Casa do Louco” e “Tumba do Penadinho” cabiam perfeitamente no novo parque. Espaço para elas não falta, já que o lugar possui 2 mil metros quadrados a mais que o parque antigo. Senti também falta de uma iluminação natural. Por mais lâmpadas que o parque possua, não há a mesma claridade que a luz do sol proporcionava no parque anterior. Também não há nenhuma atração relacionada à Turma da Mônica Jovem, que tem feito tanto sucesso. Por enquanto há apenas uma lojinha de lembranças, mas há informações que em breve será aberta uma nova.

O ponto positivo é que, apesar de ter visitado em um domingo, e o parque estar cheio, foi bem tranquilo ir nas atrações. Consegui entrar em todos os brinquedos que queria e ainda repeti duas vezes as atrações principais. Não é aquela espera de duas horas de fila como estamos habituados em parques tradicionais. É tranquilo de se andar, a temperatura é agradável e para se alimentar, além do McDonald’s, há a opção de uma Frutaria onde é possível comprar frutas cortadas e lavadas para comer em potinhos. Faltou a iniciativa do McDonald’s em ter um Mc Lanche Feliz com personagens da turma, mas não duvido que em um futuro breve haverá.

Espero que esse novo Parque da Mônica possa ser um marco na vida de muita gente, assim como o anterior foi na minha. São tantas boas lembranças que carrego do lugar anterior, e que espero a partir de agora gerar novos bons momentos com a família nesse novo lugar. Em um ano pretendo retornar e ver o quão mutável e inovador o novo parque consegue ser.

Fotos: Clóvis Furlanetto e Anderson Castanho

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