Somos Tão Jovens | Crítica do filme

O mês de maio vai servir como grande catarse para os fãs da Legião Urbana poderem se esbaldar nas homenagens que vão girar em torno de seu lendário vocalista. Afinal, na sexta-feira, 03/05, estreou Somos Tão Jovens, a cinebiografia de Renato Russo, um dos nomes mais emblemáticos da música brasileira e do rock nacional. E, além disso, as salas de cinema de todo o país já estão reservadas para, no último final de semana do mesmo mês, exibirem Faroeste Caboclo, a música-de-cordel de 9 minutos que narra a saga de Antonio de Santo Cristo e sua turma.

O filme de Antonio Carlos Fontoura teve como missão retratar o desconhecido período da adolescência de Renato, contando sua trajetória em Brasília, sua iniciação musical, seus dilemas, suas dúvidas e todos os fatos que ajudaram a moldar um roqueiro cheio de manias, tiques e histórias para contar.

O convocado para a difícil missão de viver Renato na telona, e agradar os exigentes fãs da banda e do cantor, foi Thiago Mendonça (o Luciano, de 2 Filhos de Francisco). E é dele o mérito por praticamente todos os pontos altos de um filme que demora um pouco a engrenar mas que tem um final satisfatório.

O ator conseguiu imprimir em sua interpretação toda a hecatombe existencial de Renato Manfredini Júnior – um rapaz doce, tímido, confuso e solitário, mas também mimado e mal-criado com seus pais (que pareciam ser bem legais), meticuloso, cínico, explosivo e arrogante, tudo misturado e de uma vez, sem exagerar nas excentricidades que ficaram famosas quando o cantor virou Russo, com os louros da fama já colhidos ao lado de Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e a sua Legião Urbana. E o que torna o filme interessante é justamente ver uma história de bastidores sem palco, holofotes e gente pedindo autógrafo. Apenas Renato se transformando em tudo aquilo que os fãs vieram a conhecer anos e anos depois de toda a Turma da Colina. Afinal, o filme termina com a ida do trio ao Rio de Janeiro para agarrar com unhas e dentes a oportunidade do tão sonhado primeiro disco, deixando a sensação de ‘ué, mas já acabou?’ despertar na plateia quando a tela é tomada pelos créditos logo após a exibição de Será, ao vivo em um show no Parque Antártica, em São Paulo, com a banda já consagrada.

Thiago Mendonça surpreende como Renato Russo por dois motivos: além da clara semelhança física e de executar com extrema competência seu papel, emprestou a própria voz para cantar os diversos sucessos do compositor sem decepcionar. As danças malucas, as constantes mexidas nos óculos e nos cabelos, a boca grudada no microfone quando conversava com a plateia, o olhar acanhado… Em alguns momentos, é possível ver e ouvir o próprio Renato lá, cantando e tocando. Nada caricato. Apenas muito bem feito.

Quem também roubou a cena foi Laila Zaid. A global não integra o seleto grupo das atrizes da emissora. Trabalhou em algumas novelas como Malhação e mais recentemente em Amor, Eterno Amor, mas nunca como protagonista ou em papeis de grande destaque. Acredito que Somos Tão Jovens seja o ponto de virada para esta talentosa atriz, super convincente no papel de Ana Cláudia, uma compilação de todas as mulheres com que Renato se relacionou durante sua adolescência.

É ela quem ajuda Renato a sair do armário – e aí está outro ponto bacana do filme. A homossexualidade, sempre polêmica, foi tratada com leveza e, até certo ponto, bom humor. Além disso, outras questões que marcaram a vida do cantor, como as drogas e a bebida (ele foi um alcoólatra dos mais compulsivos), são desenhados de forma sutil: uns baseados aqui, outros ali e um ou outro pileque. Nada que nenhum moleque de 18 anos nunca tenha feito.

Acredito que o diretor acertou ao tentar se distanciar ao máximo desses assuntos. Sua intenção, conforme declarado em diversas entrevistas (e a pedido da mãe, da irmã e do filho de Renato), foi fazer um filme de turma, de galera, de adolescente. Sem grandes dramas e tristezas. Por isso, caso alguém esteja em busca de uma cinebiografia marcada por vícios autodestrutivos, certamente sairá frustrado do cinema. Em Somos Tão Jovens, o espectador não vai encontrar, por exemplo, pulsos cortados, o alcoolismo nem seu vício em remédios e em heroína.

Entretanto, nem tudo são flores. O filme possui alguns pontos negativos que incomodam, como um texto raso que demora a engrenar e a convencer, principalmente nos primeiros minutos. Algumas falas são forçadas, muito por causa de uma coisa um pouco irritante: colocar trechos de músicas e de citações como diálogos. Além de ser forçado e fora de contexto, não soa natural.

Outra questão falha do roteiro foi tornar o filme muito didático e autoexplicativo em algumas passagens. Ok, ninguém é obrigado a saber que Renato gostava muito de livros, cinema e rock, mas também não é necessário deixar isso tão escancarado uma vez que o filme já está mostrando isso. O diálogo texto X imagem contribui para enriquecer seu conteúdo e estimular a inteligência do espectador. Partes como “Renato, trouxe para você as coisas que você mais gosta: livros, cinema e revistas de rock”, “vamos mudar o mundo”, “uma legião de fãs”, a explicação do porquê do Russo em seu nome, além de algumas outras, são meio foto-legendadas. Parecia que, depois disso, algum personagem viraria para a tela e diria “deu pra entender, ou quer que eu desenhe?”.

Isso tirou um pouco do brilho do filme. Mas nada que uma direção bem feita, uma trilha sonora gostosa com releituras de clássicos da Legião, uma direção de arte interessante (foi legal ver o retrato de Brasília no final da ditadura militar, a casa dos Manfredini e a cena punk da época), as inspirações para as suas letras e a ótima atuação do protagonista não sirvam para fazer de Somos Tão Jovens um filme divertido e gostoso de assistir.

nota 3,5

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